OS ERROS DA FELICIDADE [o que nos impede ser felizes?]
- Márcio Harff

- 12 de mai. de 2025
- 7 min de leitura
Já parou para pensar porque muitas vezes sabemos o que precisa ser feito para ser mais felizes, mas mesmo assim não conseguimos colocar em prática?
Ou por que cometemos erros repetidamente, mesmo quando sabemos o que é certo fazer?
Porque vamos lá: a essa altura do campeonato, acredito que, mesmo não sendo um expert no tema, pelo menos algumas coisas você já sabe que promovem a felicidade, com evidências científicas:
Qualidade das relações interpessoais:
Exercícios físicos e boa alimentação;
Sono de qualidade;
Senso de significado e propósito;
Entre outras.
E por que não colocamos em prática esse conhecimento então?
O que quero propor de reflexão aqui é que O QUE fazer para sermos mais felizes já deixou de ser uma novidade e, com ajuda da ciência, temos evidências de que estes são bons caminhos a serem trilhados para quem quer ser mais feliz.
Agora COMO fazer isso, tem sido um problema.
É aqui que quero chegar.
Por que raios não conseguimos colocar em prática O QUE sabemos?
Para explicar, quero te apresentar o conceito do que chamei de OS ERROS DA FELICIDADE.
Mas antes disso... afinal: o que depende de nós quando o assunto é felicidade?
Quando falamos de felicidade, dá para dividir em duas grandes áreas:
Coisas e ações que dependem de nós: nossas ações, decisões, mentalidade, jeito de pensar e encarar a vida;
Coisas e situações que não dependem de nós: relacionados ao ambiente em que estamos.
Por exemplo, é hipocrisia dizer para uma pessoa que vive na Ucrânia hoje, que a felicidade dela depende somente dela. Não!
Existem sim, coisas que ela pode fazer, mas o ambiente também tem muita influência. Em todas as esferas da vida é assim.
Importante dizer também, que uma coisa não é independente da outra. Nós influenciamos o meio, assim como o meio nos influencia.
Exemplo prático mais próximo: eu posso ir até o McDonalds, mas posso DECIDIR comer uma salada. Mesmo que o ambiente esteja me enchendo de estímulos para comer um hamburguer, eu ainda tenho condições de escolher o que vou comer. Ou não comer nada.
Sim, o ambiente influencia e torna mais difícil tomar decisões "saudáveis" em um ambiente como o McDonalds (aromas, imagens), mas ainda assim, na hora de chegar no caixa, tenho a oportunidade de ESCOLHER a salada.
Completando o exemplo: é óbvio que se quero me alimentar de forma mais saudável, eu não deveria nem ter ido ao McDonalds em primeiro lugar. Não seria uma decisão inteligente, porque eu me expus a um ambiente que não colabora com meu objetivo de se alimentar de forma mais saudável.
Todavia, não adianta estar em um ambiente propício para a saúde e pedir um hamburguer duplo com bacon no ifood.
No resumão, existe: o que depende de mim VS o que não depende de mim e dessas variáveis, temos um resultado.
Quando falo dos ERROS DA FELICIDADE, estou falando especificamente DO QUE DEPENDE DE NÓS. Todo grande leque do ambiente, nessa hora, fica fora da sala, ok?
Por que nessa hora, está em itálico e sublinhado? Por questões didáticas.
A vida não separa as coisas em caixinhas e tudo acontece ao mesmo tempo, incluindo o que depende ou não, de mim, certo? Vamos adiante!
E de onde vem Os Erros da Felicidade?
Segundo o pesquisador, e vencedor do Prêmio Nobel de 2002, Daniel Kahneman (2011, p.10), todos nós estamos sujeitos a "erros sistemáticos" que se repetem de forma previsível em circunstâncias particulares.
São os (cada vez mais famosos) VIESES. Vieses comportamentais. Vieses inconscientes. Vieses de intuição. Diversos nomes e formas.
Exemplo clássico para começar. Olhe para a imagem e responda qual dos dois círculos laranja é maior?

Muito provável que sua resposta foi "o da direita", porém a resposta correta é: os dois são do mesmo tamanho.
Para provar, abaixo segue um GIF animado. Pode comparar. Demore o tempo que quiser, pegue régua se for preciso. São iguais.

Isso acontece porque o entorno afeta nossa percepção. Nós comparamos o objeto analisado, ancorando e contrastando com tudo que estamos vendo.
Enquanto os círculos cinza ficam no campo de visão, estamos ENVIESADOS por eles. Quando eles saem, podemos "ver a verdade".
É MAIS SIMPLES DO QUE PARECE...
Tá Márcio, mas o que essa ilusão de ótica tem a ver com felicidade e erros sistemáticos previsíveis?
O primeiro ponto é entender que os vieses são, em sua maioria, inconscientes. Significa que, mesmo que você saiba que os círculos são do mesmo tamanho, um não deixa de parecer maior ou menor que o outro quando você olha a imagem.
Simplificando: é como se não houvesse escudo eficaz. Estamos sujeitos aos vieses, querendo ou não. A diferença é: quando sei, quando tenho consciência que estou sujeito a um viés, tenho mais recursos para tomar melhores decisões. E nossas decisões impactam na nossa felicidade.
O PRIMEIRO ERRO DA FELICIDADE:
Temos diversos estudos que mostram impactos práticos em nossa vida do Efeito Ancoragem que exemplifiquei através da dinâmica dos círculos. (Kahneman, 2011; Ariely, 2009).
O efeito ancoragem (priming) é um viés.
Isso significa que se comparar e ter uma referência de comparação é algo praticamente inevitável do ponto de vista científico. O erro está no que fazemos depois dessa comparação automática.
Um estudo analisou o comportamento de pessoas muito felizes e muito infelizes.
A pesquisa foi conduzida pela referência mundial em felicidade Sonja Lyubomirsky, da Universidade da Califórnia.
Em linhas gerais, o estudo contou com participantes extremamente felizes e extremamente infelizes. As duas "pontas da régua".
O experimento:
Essas pessoas foram convidadas a participar de uma dinâmica onde tinham que resolver enigmas e ir avançando etapas, como um jogo de fases. Ao lado delas tinha um outro participante que resolvia os problemas mais rápido ou mais devagar (só que esse era um ator que fazia parte do experimento).
O estudo foi desenhado para que fosse possível ver claramente o progresso do colega. O ator tinha a intenção de gerar comparação social e partir disso, analisar o comportamento e desempenho dos participantes reais.
Existia uma hipótese inicial nessa pesquisa: de que as pessoas muito felizes, são muito felizes porque se comparam com pessoas menos felizes e, por isso, são muito felizes.
A hipótese defendia ainda que, as pessoas infelizes, são infelizes porque se comparam com as muito felizes e, por isso, se sentem infelizes, mas...
... A HIPÓTESE ESTAVA ERRADA!
Após o experimento, percebeu-se que as pessoas felizes "nem sabiam" o que era se comparar. Não importava se o colega ia rápido ou devagar, isso não afetava o desempenho e concentração delas.
Na verdade, elas ficavam entusiasmadas quando alguém performava bem no exercício:
“Quanto mais feliz a pessoa, menos atenção ela presta em como os outros ao seu redor estão se saindo.” Lyubomirsky, 2007.
A mesma pesquisa mostrou que as pessoas infelizes se sentiam diminuídas e tristes ao ver alguém com melhor desempenho que ela.
O mesmo viés, afetando de formas diferentes pessoas felizes e infelizes.
Combinado com um mundo onde as redes sociais ajudam a colocar luz nos palcos alheios, enquanto seus bastidores ficam ocultos e temos um prato cheio para comparação social diária, ou seja, para ausência de felicidade.
COMPARAÇÃO SOCIAL É UM ERRO DA FELICIDADE.

Ninguém precisa se sentir mal por se comparar socialmente. Como vimos, é natural do ser humano e apesar de ser moralmente discriminada, essa comparação é um viés e praticamente inevitável.
A questão é o que fazemos depois dela: deixamos que nos afete, que atrapalhe nossa felicidade?
Para interromper esses pensamentos e "vencer" esse ERRO DA FELICIDADE, a pesquisadora Susan Nolen-Hoeksema, especialista em ruminação, recomenda algumas práticas. Com foco na objetividade, agora quero dividir apenas uma que considero a mais eficaz:
PEGUE OUTRA ESTRADA. Ao perceber que está se comparando, assuma o comando, pare de cismar ou ruminar e distraia-se focando em outro tema. Já sabemos que quando tentamos interromper um pensamento, esse pensamento fica mais forte em nossas mentes. Não pense em um elefante verde limão. Pronto. Pensou. Por isso, distraia-se, distraia-se, distraia-se. Além disso, concentre sua atenção às suas ações, ao que você pode fazer diante de uma situação e não o que depende de outra pessoa. Afinal, é a única coisa que você pode controlar de fato.
Pode parecer óbvio, mas isso só possível depois da tomada de consciência, depois de conhecer esse ERRO DA FELICIDADE.
OBSTÁCULOS DA FELICIDADE

Todos sabemos que existem muitos desafios nessa longa estrada da vida.
Sabemos também que haverão pedras no caminho.
Agora te pergunto: é mais fácil dirigir nessa estrada sabendo quais obstáculos vamos encontrar? Ou deixar que a cada curva uma pedra nos surpreenda, atrapalhe e nos impeça de colocar em prática a trajetória que planejamos.
Eu sei a resposta e você também.
E foi pensando nisso, que eu comecei a mapear diversos VIESES, diversos ERROS de pensamento que atrapalham, especificamente, a nossa FELICIDADE.
Até o momento, eu mapeei 27 vieses que se enquadram nessa categoria dos erros que sabotam silenciosamente a nossa felicidade. E quanto mais eu estudo, mais percebo como esses desvios de pensamento também moldam, limitam — ou expandem — nossas decisões de carreira.
Afinal, não é só a felicidade que sofre com esses erros.
Quantas vezes você já viu alguém desperdiçar talento por medo? Permanecer em um emprego insatisfatório por inércia? Ou se comparar com os outros nas redes sociais e sentir que está "atrasado" na vida profissional?
Esses também são erros sistemáticos. E muitos deles têm nome, têm base científica, e — o mais importante — podem ser reconhecidos e combatidos.
Por isso, eu decidi continuar esse trabalho ampliando a lente: não só os Erros da Felicidade, mas também os Erros da Carreira. Aqueles que atrasam, confundem, paralisam. Que nos fazem acreditar que estamos sendo racionais, quando na verdade estamos sendo... enviesados.
Me conta: qual erro de pensamento você reconhece mais na sua vida profissional?
Quer saber mais sobre Ciência da Felicidade aplicada ao mundo corporativo e pessoal? Entre em contato com a equipe de Márcio Harff.

Referências do artigo:
ARIELY, Dan. Previsivelmente Irracional, 2009
HANSON, Rick. O Cérebro e a Felicidade, 2013.
KAHNEMAN, Daniel. Rápido e devagar, 2011.
LYUBOMIRSKY, Sonja; ROSS, Lee. Hedonic consequences of social comparison: a contrast of happy and unhappy people. Journal of personality and social psychology, v. 73, n. 6, p. 1141, 1997.
LYUBOMIRSKY, Sonja. A Ciência da Felicidade, 2007.



![O [Kit de Ferramentas] do profissional (ocupado) que quer ser feliz.](https://static.wixstatic.com/media/10ee0c_ea430d03a35d4ec5b2b1a8870da345b4~mv2.jpg/v1/fill/w_980,h_654,al_c,q_85,usm_0.66_1.00_0.01,enc_avif,quality_auto/10ee0c_ea430d03a35d4ec5b2b1a8870da345b4~mv2.jpg)

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